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domingo, 12 de abril de 2015

Ser Gordo

Então vamos começar do começo. Deixe-me apresentar a vocês para que possamos nos conhecer melhor. Sou Carolina, mulher, solteira, leonina, na casa dos 30, Médica Veterinária com orgulho, azarada por nascimento e gorda.




Vocês tem que entender que ser gordo não é apenas uma questão de aparência, é um fato determinante que vai lapidar a sua personalidade. Nós, os gordos, podemos ser divididos em três grandes categorias: os brincalhões, os mal humorados e os que se aceitaram.


 Os brincalhões são aqueles que têm como defesa fazer brincadeiras sobre tudo, inclusive sobre ser gordo para passar a impressão de que não ligam, assim, se você faz a brincadeira primeiro, ninguém pode caçoar de você. Já os mal humorados, são aqueles que não admitem nenhuma brincadeira por que afinal de contas, você não paga minhas contas para julgar minha aparência. O último grupo é aquele das pessoas que se aceitam enquanto gordas e são felizes assim.



Eu nasci mal humorada. Sim, é um traço de personalidade que alguns podem dizer que acaba atraindo o Azar. Pode ser que estejam certos, mas quero ver você viver a minha vida e acordar sorrindo todos os dias.


Ser uma criança gorda significa que você não terá amigos. Por que as crianças, ao contrário do que as propagandas de dia das mães mostram, não são doces e ternas e com o coração bondoso e inocente. A criança é um mini adulto, com todos os defeitos e maldades dos adultos, sem a noção de que aquilo é um defeito e portanto, com todo o direito de ser o que ela é: autentica e má. Cabe ao adulto podar a criança para que ela se torne um ser que possa conviver em sociedade, caso contrário, ela será segregada juntamente com seus pais que não lhe deram limites.




Ao contrário do que podem estar pensando, eu amo crianças. Adoro as histórias, as carinhas de felicidade com as pequenas mudanças que acontecem todos os dias. Mas eu consigo ver que ali dentro existe uma pequena chama maligna que vai apontar, segregar e maltratar tudo aquilo que é diferente. E ser gordo é ser diferente.


Todo mundo fala do preconceito que sofrem os negros e os homossexuais, mas ninguém fala do preconceito contra os gordos. Por que afinal de contas, você é gordo por que você quer, o negro e o homossexual não tem escolha. Por que você acorda pela manhã, respira fundo e fala: Bom, a partir de hoje, eu serei gorda! Acho que vai ser muito bom pra mim e que a minha vida vai melhorar bastante.




Não, não funciona assim! Você vai engordando por uma série de fatores genéticos, psicológicos, alimentares e comportamentais que se você tivesse controle, não haveria uma alma nesse mundo balançando os pneus pra fora de uma calça apertada. Mas aí que vem o pulo do gato. Você se acostuma. Aquela pessoa é você, e você é tão julgado, cobrado, segregado e humilhado pelas pessoas à sua volta, sejam parentes que acham que estão te ajudando ou estranhos na rua, que você precisa se defender. A pessoa pode ser grosseira, invejosa, mal educada, feia, desagradável, mas você não tem o direito de ser gordo por que ao que tudo indica, isso parece ofender os olhos dos outros.


E você se defende! E quando você menos espera, você mudou, por que o que você passa a defender não é mais você mesmo, mas é o seu direito de ser você mesmo, o seu direito de ser gordo. E é a partir desse momento que você mesmo se nega o direito de emagrecer. Afinal você já lutou muito pra poder ser gordo. E é aí que você vai sendo lapidado pela sua aparência.


            Você não pode fazer as cosias que as pessoas “normais” fazem. Você não pode simplesmente comprar uma roupa baratinha que fique bonitinha, por que não existe isso para um gordo, afinal não dá pra fazer uma blusa que vai o dobro ou o triplo da quantidade de pano e cobrar a mesma coisa. Você não pode sair pra comer com os outros por que ou as pessoas vão comentar que você come muito ou que achavam que você comeria muito mais, por que as pessoas se acham no direito de não ter educação com você, afinal quer coisa mais engraçada que um “gordo fazendo gordice”? Você não pode ir a uma festa e dançar, por que vai ser motivo de piada para os outros. Até se um cara bonito chega em você e puxa assunto, não dá pra saber se é de verdade ou é gracinha pros amigos dele. Eu, em toda a minha paciência infinita já tive que ouvir de um idiota que gordo não tem sexo, ele só foi feito para ser zoado.



            Não, nós não somos iguais a você. Nós somos muito diferentes. Você já foi desconvidado de uma festa de 15 anos por que não ficaria bem no vestido? Eu já. Eu já vi a cara de decepção do empregador que te chama para uma entrevista dizendo que só queria formalizar a contratação pois seu currículo era exatamente o que ele procurava e quando você chega, a vaga “já foi preenchida”. Acho que a pessoa que preenche esse tipo de vaga deve utilizar tecnologia alienígena pra conseguir ser contratada na meia hora em que você demorou para chegar na entrevista.




            E os elogios?
- Nossa, você é tão bonita de ROSTO!
- Sério? Eu achei que eu tava gostosíssima!!!!
- Ai por que todo gordinho tem o rosto tão lindo???
-Não querido, não tem, beleza e gordura não estão condicionadas uma a outra e também não são excludentes. A pessoa pode ser bonita E gorda, bonita E magra, feia E gorda, feia E magra.




É aquele momento que você não sabe se a pessoa está realmente te elogiando ou está te “desculpando” por você ser gordo por que você tem uma cara bonitinha.


   A questão que importa aqui é que a sua vida muda pelo simples fato de você estar acima do peso. Algumas pessoas se tornam depressivas, outras revoltadas, outras amargas. Eu sou mal humorada, mas aos poucos, depois de brigar muito na escola e bater nos coleguinhas que tiravam sarro de mim, descobri que isso era “inaceitável” e então passei para a segunda fase, a brincalhona. Mas tenho uma personalidade tão desgraçada que não posso ser simplesmente divertida, sou uma pessoa sarcástica.


Afinal de contas, todos temos o bem e o mal dentro de nós, é que o meu mal é tão aparecido que quando eu tento ser boa, ele dá um jeito de se enfiar no meio e aí surge o sarcasmo.


Eu acho que existe algum plano secreto ou algum bônus que nós gordos não estamos sabendo para a pessoa que conseguir emagrecer um gordo. Não sei se você vai direto pro Céu, se seus pecados são reavaliados no dia do juízo final, realmente não sei dizer, mas todo mundo conhece um ex gordo que usou uma dieta milagrosa e quer ensinar pra você. A pessoa nunca te viu, não quer saber nem o seu nome, ela só quer salvar na sua vida. Dinheiro no meu bolso ninguém quer colocar! Teve uma lazarenta que chegou ao cúmulo de andar em silencio comigo por 1 quadra e no final do quarteirão perguntou quanto eu pesava! E ela era gorda! Sério? E a sua mãe como é que está minha senhora? Não sei se ela pensou que nós fossemos trocar figurinhas, receitas de engorda ou virar BFF.





Mas aos poucos a vida vai te mostrando que não importa a sua aparência, se você nasceu azarado, você pode ser magro, gordo, branco, negro, amarelo, o que você quiser por que o Azar não tem preconceitos. Ele aceita a todos os filhos de Deus de braços abertos.

sábado, 11 de abril de 2015

O Azar

Você começa a perceber que é uma pessoa azarada nas pequenas coisas. Eu por exemplo comecei a observar que as coisas que eram fáceis para os outros, pra mim eram sempre mais difíceis. Existem coisas que ninguém acreditaria que poderiam acontecer, mas elas acontecem com você. Elas aconteceram comigo.


Vou lhes dar uma pequena amostra para que entendam melhor, com pequenos acontecimentos do meu cotidiano. Um dia eu já fui jovem, inocente e acreditava que a vida era boa. Claro que eu não era idiota e gostava de andar de ônibus, mas eu não ligava muito. Certo dia depois de estudar loucamente, peguei o metrô, desci na estação Praça da Árvore e fui para a fila do ônibus. Geralmente eu costumava ir a pé para casa, mas nesse dia estava com dor no pé e resolvi esperar o bendito.


Passados 40 longos minutos na fila, finalmente ele estava chegando! Vermelho, pomposo, brilhando ao sol do fim da tarde! Que emoção! Eu ia para casa! Contive meu entusiasmo, esperei o ônibus parar e no momento em que a fila andou para que eu pudesse colocar meu doído pezinho dentro do tão esperado transporte para casa, uma pomba cagou na minha cara! Sim meus amigos, na minha cara! A merda escorreu pela minha bochecha e por muito pouco não entrou na minha boca.





Recolhi-me à minha insignificância, peguei o resto da dignidade que me restava, entrei no boteco para me limpar e lá se foi meu ônibus chacoalhando rumo a minha casa. E então, com ou sem pé, tive que voltar para casa andando toda cagada e com o espírito na lama.


Anos depois, quando eu estava na faculdade, outro evento sem igual se apresentou à mim novamente em um ponto de ônibus. Acordei cedo, fui para o ponto esperar o danado para ir à aula. Quando saí de casa um cachorrinho estava na porta, eu brinquei com ele e fui andando. O danadinho veio andando ao meu lado. Chegamos ao ponto e tinha umas 7 pessoas mais ou menos esperando também. O cachorrinho começou a latir para mim pulando todo alegre, eu brinquei com ele e não mais que de repente o desgraçado montou na minha perna!


 Foi uma explosão de risadas para todos os lados e um constrangimento absurdo que eu só pedia que Deus me levasse naquele momento. Quanto mais eu chacoalhava a perna pra ele soltar, mais ele gostava! E você faz o que? Chuta o cachorro? Espera ele terminar o serviço? Não! Você junta a pouca dignidade que lhe resta e sai andando com a cabeça erguida para o próximo ponto de ônibus torcendo pro cachorro não te seguir.




Agora me digam, quais são as chances de você atravessar uma rua, que você atravessa todos os dias da sua vida, e cair no bueiro? É isso mesmo! Você tropeça no bueiro, cai de quatro no meio da rua e tem que levantar rapidamente como se nada tivesse acontecido enquanto um ônibus vem ensandecido em sua direção. Você levanta e sai andando igual ao Quasimodo tranquilamente, afinal, nada mais comum que cair de quatro no meio da avenida...


Eu sou o tipo de pessoa que odeia todo e qualquer tipo de esporte, odeio mesmo, do fundo do meu coração. Eu me sinto ridícula correndo atrás de uma bola, ou batendo nela, ou pedalando, ou fazendo qualquer coisa que me faça suar. Enfim, um dia eu resolvi que ia à casa da minha amiga da faculdade e ia tentar algo novo, eu ia de bicicleta. Que pessoa atlética! Mas eu acabei percebendo que tenho um problema com meios de transporte no geral. A maior parte do percurso era reta, então não havia nenhum esforço.



Chegando na virada do Parque Municipal de Botucatu, tem uma descida bem íngreme. Como eu não tinha prática de andar na bicicleta pensei comigo mesma: melhor descer e ir empurrando a magrela pra não correr o risco de cair. Pois eu desci da bicicleta, dei um passo, torci o pé, caí, a bicicleta caiu por cima de mim e nós duas descemos uns bons metros rolando ladeira abaixo. Se isso não é Azar eu realmente não sei mais como posso provar a minha teoria de que eu nasci cagada de arara, ou de pomba ao que tudo indica.


sexta-feira, 10 de abril de 2015

Minha Natureza


Eu sempre quis escrever um livro. Sempre achei mágica a vida do escritor e o que o leva a histórias tão fascinantes. Durante muitos anos me perguntei se um dia eu teria a inspiração para compor grandes romances, aventuras repletas de guerras e tramas políticas intrincadas em cenários majestosos; e as obras de arte de grandes escritores como J.R.R. Tolkien, Marion Zimmer Bradley, Bernard Cornwell, Anne Rice, Maurice Druon povoaram a minha mente com tanta magia e acontecimentos surpreendentes que um dia eu parei e disse para mim mesma: Você vai escrever um livro!




Sou uma apaixonada pela Idade Média, como todo bom nerd que não é fã de Star Wars, então me sentei em frente ao computador, coloquei minha coleção de músicas celtas (isso mesmo, celtas) para tocar e ir entrando no clima. E eu escrevi... Escrevi durante horas e os cenários foram brotando em minha mente... o cheiro do capim molhado pelo orvalho numa manhã tão distante numa cidadezinha no sul da Inglaterra, as crenças de um povo e suas lutas para defende-las, os costumes de outra época, a chegada avassaladora do cristianismo matando os velhos deuses, as diferenças de classe entre nobres e camponeses e toda uma gama de detalhes que ao final do dia eu já tinha quase 60 páginas!




Uau, você nasceu para isso! E é aquele momento quando você para de escrever, relê tudo aquilo e pensa consigo mesma: Meu Deus, que BOSTA! Não que tenha sido mal escrita ou que a história em si não fosse boa, mas meus personagens não tinham aquilo que me faz amar tanto os bons escritores: ALMA. Eles eram técnicos, eles eram perfeitos, eles eram vazios... Mas calma, eu posso consertar isso. Então eu salvei o arquivo e fui dormir.


Os dias se passaram sem que eu pudesse ao menos sentar em frente ao computador e arrumar aquela história. Mas o dia de inspiração veio, e eu me sentei, reli e fui adicionando detalhes e nuances de personalidade em cada um deles que me deixaram realmente orgulhosa do meu novo trabalho. Aquele era um livro que eu poderia ler, aquele era um livro que as pessoas gostariam e não o tipo de trabalho que só a sua mãe acha bonito. Eu era uma escritora!


Nesse momento da minha vida eu era praticamente um Shakespeare e as páginas brotavam com uma facilidade e uma riqueza de detalhes de dar inveja... mas a realidade da minha existência já estava à espreita e conspirando para punir qualquer sentimento de vitória ou a mera vaidade.
         

  
      E essa realidade tão fortemente arraigada ao meu ser é chamada de Azar, não simplesmente azar, mas Azar, com letra maiúscula como um nome próprio. Por que o Azar não é o mero antônimo da sorte, ele é uma entidade! Você não precisa bater cabeça no terreiro pra ele baixar, ele é matreiro, esperto, come quieto e quando você menos espera, ele já tomou conta da sua vida. Eu vejo o Azar como um singelo trevo que nasce no seu jardim, ele é pequeno, único, mas aos poucos ele vai se espalhando e quando você percebe, não existe mais grama, apenas trevos, e não se engane, nenhum deles terá 4 folhas.



Cada pensamento, cada ação, cada pequeno deslize que você sonhar em cometer, ele estará lá por que ele sabe, ele te conhece e ele vai levar toda vantagem que puder sobre você.


Você conhece a Lei de Murphy? Edward Murphy era um engenheiro aeroespacial norte americano que estava trabalhando em um projeto que foi arruinado pelo não funcionamento dos sensores mal instalados que iriam provar sua hipótese, e foi o primeiro a ser arrebatado por sua própria lei: Se existe alguma chance de dar errado, vai dar... e digo mais, vai ser comigo!


E foi assim que em um belo dia de sol, quando os pássaros cantavam e a vida era boa que um pequeno trevo surgiu no meu jardim...  o digníssimo computador travou de uma forma tão espetacular que teve que ser formatado e lá se foi meu tão precioso livro... Mas você acha que eu não tinha salvo minha obra de arte? É claro que sim! Eu salvei! Em um disquete... Sim aquelas coisinhas quadradas e coloridas que só são usadas nas aulas de informática da faculdade no primeiro ano, por que afinal de contas, a tecnologia ainda não atingiu o nível acadêmico e, ao que tudo indica, nem a mim.


Sim, eu tinha um disquete, não apenas um, eu tinha duas caixas de disquetes coloridos e em um deles, estava o meu querido livro. Não me preocupei mais com ele então, ele estava à salvo.




A vida cotidiana não me deixava mais escrever, e ele foi ficando de lado. Até que um belo dia, ficamos prósperos o suficiente para comprar um novo computador. Nossa que alegria! Tudo novo, mais rápido, mais moderno, tudo que eu sempre quis.


O tempo nos traz coisas boas e ruins, e com o tempo vem as mudanças tecnológicas tão intensas que na maioria das vezes não conseguimos acompanhar. E foi assim que o senhor Azar veio até mim, disfarçado de tecnologia para roubar de vez meu livro... por que o novo computador, não tinha drive de disquete e, o velho, já não funcionava mais. Vai com Deus meu pequeno livro, vá em paz!


           
(Quando um simples juntar de beiço exprime toda minha alegria de viver)


Eu poderia ter feito uma nova cópia, eu poderia até ter salvo no meu e-mail, mas não fiz. E por que? Porque o Azar não lhe dá a chance de pensar em nada, ele se apodera da sua mente e você fica ali, sem ver nenhuma saída onde tantas estão à sua frente. E foi assim que depois de muitos anos e muitas coisas que poderiam dar erradas e deram que eu resolvi escrever sobre o assunto que eu mais domino: o Azar.