Esse é um breve relato sobre o dia
em que eu quase vi a morte e seria uma morte digna de piadas eternas...
Poucas coisas na vida são tão
libertadoras quanto poder chegar em casa, tirar a roupa e tomar um bom banho. E
não precisa ser depois de um looongo dia de trabalho, pode ser depois de uma
ida ao mercado, ao shopping, ao correio, qualquer lugar que te faça sair de
casa, o importante e chegar em casa e tirar a maldita roupa!
Ao longo dos anos, adquiri o habito
de andar sem roupa em casa e não havia nenhum problema quando só haviam
mulheres na casa, mas como o hábito faz o monge... é realmente incômodo ter que
vestir roupas, elas te apertam, te esquentam, e irritam. Eu odeio roupas.
Obviamente que não sou uma daquelas pessoas naturalistas, mesmo por que
acredito que não devo causar horror à população no geral, mas dentro de casa
tudo é permitido.
Quando me mudei para Botucatu para
fazer faculdade as coisas não eram tão permitidas assim. Quando você mora com
outras pessoas não pode simplesmente andar pelada dentro de casa... existem
regras! Morávamos em 3 meninas na casa e a regra era a seguinte: se você quer
sair pelado pela casa, beleza, só precisa dizer às outras: "fecha a porta que eu
vou correr pelada" e cada uma entrava para seu próprio quarto sem nenhum
problema, essa é uma das maravilhas de se conviver com pessoas civilizadas.
Mas os finais de semana eram
realmente libertadores! Chegava da faculdade na sexta-feira à noite, já tirando
a roupa no quintal e só voltava a colocar no domingo quando as meninas iam
chegar. E então Murphy resolveu que eu estava muito satisfeita e livre demais e
achou por bem colocar um fim à essa farra do balanga teta...
O dia era domingo... e eu estava
sozinha em casa. Se você já morou em uma república sabe o significado da
palavra “gambiarra”. Pois havia uma bem grande no meu quarto. Só tinha uma
tomada, então eu puxava uma extensão com um benjamin ligado no outro de forma
que eu conseguisse ligar a televisão, o dvd, o abajur, o ventilador, o
carregador do celular, o computador e tudo que houvesse no quarto, e essa
extensão passava embaixo da minha cama.
Domingo
pra mim era dia de faxina, as meninas só chegavam de noite então eu podia
vadiar o sábado todo, no domingo eu fazia a faxina no comecinho da tarde e
podia descansar o resto do dia. Esse dia estava particularmente calor então,
depois da faxina, fui tomar um banho frio para refrescar, obviamente não
coloquei roupa após o banho e fui deitar um pouco na frente do ventilador pra
acabar com o calor de vez... mas então o ventilador não funcionou por que a
gambiarra dos fios era um pouco instável...
Eu
havia acabado de passar pano no meu quarto e ainda estava molhado, mas como eu
ia entrar correndo e pular na cama não havia problemas, ele ia secando aos poucos
enquanto eu dormia, mas havia o maldito ventilador. Sou uma pessoa que tem
alguns hábitos que não podem ser mudados. Eu não consigo entrar no quarto sem
ligar o ventilador... não consigo dormir no silêncio, tem que ter o barulhinho
dele. Derrotada pelo meu TOC, resolvi que teria que arrumar a gambiarra, então,
decidi que iria deitar no chão molhado mesmo e depois tomaria outro banho.
E
foi o que eu fiz... desci da cama, deitei no chão molhado sem roupa e fui mexer
na gambiarra embaixo da cama. Peguei meu corpinho de fada, me arrastei para
debaixo da bendita cama e no momento me que peguei a extensão a desgraçada me
deu um choque que eu fiquei com a mão presa nela...
Alguns
pensamentos passaram pela minha cabeça naquele momento:
1.Como você é burra!
2.Kct você é muito imbecil por mexer numa tomada
no chão molhado.
3. Por que raios você não colocou uma roupa pra
fazer essa merda?
4.Que cena dantesca deve ser essa eletrocussão de
uma mulher gorda, pelada embaixo da cama no chão molhado.
5.Imagina se as meninas chegam e me acham morta, pelada embaixo da cama?
6.Imagina o que vão falar para os meus pais...
7.Solta o inferno do fio!
E
então eu soltei a extensão e sobrevivi não ao meu intrínseco azar, mas à
burrice congênita!
Sabe aquele trabalho que se encaixa
exatamente no seu modo de vida? Quem não quer poder acordar à hora que quiser e
ainda assim nunca se atrasar para o trabalho? Essa é a vida maravilhosa dos
Plantões Noturnos! Uma pessoa que tem como companhia a insônia não pode pedir
mais nada aos céus! Porque se é pra não dormir mesmo, pelo menos que eu ganhe
dinheiro com isso!
O mês era dezembro, o ano, 2014... e aqui
se iniciou um novo ciclo na minha vida! Desde que saí da faculdade eu sempre quis
trabalhar à noite. Sei lá, sempre achei melhor, não tem sol, o calor é mais
ameno, tem menos gente enchendo o saco, não tem trânsito... ou seja, uma
maravilha!
Como nunca havia trabalhado à noite, passei
o mês de dezembro conhecendo o hospital, pegando prática e me adaptando ao
lugar para não ficar perdida na hora da correria e, meu primeiro plantão seria
no Ano Novo... novos começos indeed!!!!
Tudo corria às mil maravilhas e eu
realmente gostava de ir pra lá, gostava das pessoas, gostava de tudo e a
ansiedade para começar logo foi tomando conta de mim! Que venha o Ano Novo!
Então chegou o grande dia... dia
31/12/2014... minha família ia comemorar a passagem de Ano na minha casa e
passamos a semana toda fazendo os preparativos, arrumando a casa, fazendo
comida, eu ajudava minha mãe depois de voltar do hospital e então, o grande
dia chegou....
A noite do dia 30 para dia 31 foi
simplesmente infernal. Sabe quando você passa a
noite inteira acordando, porque não se sente bem, mas não sabe muito bem
o que está acontecendo? Tive calor, depois frio, aí suava em bicas, tomei
banho, voltei pra cama, então começou o enjoo, a dor de cabeça, a diarreia... tudo
bem! Nada que um Nausedron não resolva, não é?
Mas não foi bem assim... pela manhã eu
simplesmente não conseguia sair da cama e minha mãe veio me chamar para ajudar
a dar os últimos retoques na arrumação da casa e eu não conseguia ficar em
pé... ok, só preciso de mais um pouco de descanso, água, Dipirona pra baixar a
febre e muita Ranitidina pra aguentar a dor de estômago.
Qual não foi minha surpresa quando minha
mãe entra no meu quarto 20 minutos depois dizendo que meu irmão estava do mesmo
jeito... eu não sei que desgraça se abateu sobre a casa, se bebemos água de
vala, se a dengue resolveu tomar conta de nós, se fomos intoxicados com alguma
substancia maligna, a única coisa que eu sei é que eu me sentia um cachorro com
Parvovirose...
Como sempre, meu querido Josys estava
quebrado e como moramos no orifício corrugado situado na região ínfero lombar
da cidade de São Paulo, minha mãe ligou para o meu pai que despencou do outro
lado da cidade para nos levar ao hospital. E então se iniciou o caos...
Pegamos o endereço do hospital, nos
arrastamos para dentro do carro, ligamos para pedir informações sobre como
chegar lá e fomos... obviamente que fomos para o lado errado... andamos quilômetros
e quilômetros no sentido errado da avenida e nunca chegava o maldito hospital...
meu pai é conhecido por ser uma pessoa que odeia trânsito e odeia não saber o
caminho... posso lhes dizer que não foi nada agradável ficar dentro de um carro
em movimento com as tripas se contorcendo, morrendo de sono, com dor de cabeça
e com uma náusea absurda, mas eventualmente, nós conseguimos chegar ao
hospital.
E aqui fica minha crítica ao Serviço
Público de Saúde da cidade de São Paulo. Chegamos ao hospital, passamos pela
triagem e ficamos aguardando o médico... 1 hora e 40 minutos se passaram e
continuávamos sentados no banco frio e duro de madeira esperando o dito cujo. Então
meu irmão foi chamado e cerca de 2 minutos depois, já estava de volta e eu
entrei no consultório.
O médico era muito simpático e educado mas
era a único, veja bem, o único médico no hospital inteiro para atender toda a população... e o diagnóstico foi simples: intoxicação alimentar... é uma forma
diferente de dizer que você está com virose, porque ninguém mais leva a sério
esse diagnóstico... depois que surgiram a virose a o estresse, não existem mais
diagnósticos na medicina humana e o tratamento padrão: Plasil, Ranitidina,
Buscopam e soro... então, conhecendo o tratamento você avisa ao médico que não
adianta tomar Buscopam, porque ele simplesmente não faz efeito e que você já
tomou Ondansetrona e não resolveu o enjoo...
Ahhhh sim, vou anotar aqui na minha ficha e
você vai aguardar lá fora para ser medicada... ok... mais meia hora e fomos
chamados... a enfermeira pegou minha veia, colocou o soro e o que tinha no
bendito? Plasil, Ranitidina e Buscopam... Puta merda, ainda bem que eu avisei
que essa bosta não ia fazer efeito ¬¬...
Sabe quando a única coisa que você quer na
vida é deitar numa cama e dormir como se não houvesse amanhã? Mas não, eu
estava lá, sentada num banco duro, com a cabeça encostada no meu irmão,
tremendo de febre, revirando as tripas e contando aquelas miseráveis gotas
pingarem no equipo trazendo pra dentro do meu corpo nenhuma substância que
fosse alterar meu quadro...
Aí
vem enfermeira e fala: se vocês não se sentirem melhor ao final do soro, voltem
ao médico que ele vai passar mais medicação... Nossa que coisa hein? O que será
que ele vai passar dessa vez? AS? Água com açúcar? Olhei pra cara do meu irmão
moribundo e concordamos silenciosamente que estávamos nos sentindo melhor para
podermos voltar pra cama.
Então
voltamos para casa e cada um para sua respectiva cama... e eu dormi! Senhor
como eu dormi!!! A o relógio badalou às 18h e era a hora de trabalhar... sabe
quando você quer morrer mas não quer levantar da cama? Mas vamos lá, afinal não
tinha ninguém para fazer aquele plantão...
Cheguei
ao hospital, peguei meu caixa, coloquei meu jaleco, peguei esteto, termômetro,
garrote, tudo que eu pudesse precisar e torci com todas as minhas forças que não
passasse nenhuma alma por aquelas portas... eu estava com febre, enjoada, com
dor de estômago, com diarreia, com sono a única coisa que eu não tinha, era a
vontade de trabalhar...
Mas
vocês sabem como eu sou sortuda né? Obviamente que os cães brotavam de todos os
lugares. Eu nunca poderia imaginar que alguém levaria seu cachorro ao veterinário
na virada do ano. Sim, mas as pessoas levam! E levam principalmente os idosos,
cardiopatas que têm medo dos fogos e chegam em um estado de pânico de dar dó...
E
os cães iam chegando um depois do outro... edema pulmonar, edema pulmonar,
edema pulmonar, tranquilização por causa dos fogos, tranquilização por causa
dos fogos, edema pulmonar por causa do estresse causado pelos fogos, gato
atropelado porque se assustou com os fogos... kct, gente, não soltem fogos!!!
O
momento em que toca a campainha surge a dúvida mais cruel na mente da pessoa
com diarreia: você não sabe se corre pra abrir a porta ou se corre pro banheiro, porque não vai poder sair no meio da consulta pra ir ao banheiro... e as consultas
são infinitas quando você está pior que o seu paciente...
Finalmente!
Dei alta a todos os meus pacientes, todos vivos e indo para suas casas ficar
com suas famílias e eu poderia deitar um pouco pra descansar... deitei na cama
e comecei a tremer e suar, levantei e tomei mais uma Dipirona, voltei pra cama
e então minhas tripas começaram a se rebelar... sabe quando você está naquele
estágio em que vai ao banheiro e não importa o que você vai fazer lá, você só
enxuga e levanta? Foda...
Quando
finalmente, às 3h40 da manhã, voltei pra cama para tentar descansar, tocou a
maldita da campainha!!! Calma, levanta, faz cara de saudável e vai ajudar quem
estiver precisando... e então me deparo com um casal de idosos aos prantos com
uma labradora de 15 anos, em fase terminal de câncer, chorando de dor que eles
trouxeram pra fazer eutanásia...
Eu
achei que meu ano estava começando mal, mas como aquelas pessoas poderiam
começar um novo ano levando sua companheira de tantos anos pra morrer? Existem momentos
em que você esquece dos seus problemas para poder ajudar àqueles que precisam
de você. E como você consegue pegar uma veia quando está tremendo por causa da
febre e os seus olhos estão marejados devido ao sofrimento à sua volta?
Eu
nunca vou me esquecer daquela família, daquela Mel que era carinhosamente
chamada de “minha Loira” e do carinho daquele casal ao se despedir de sua amiga...
existem momentos que realmente tocam a nossa alma. Acho que podem se passar
muitos anos e eu ainda vou me sentir da mesma forma em relação à eutanásia, porque acho que se você não tem o poder de dar vida à alguém é muito complicado
lidar com o fato de que você tem o poder de tirar uma vida sendo uma
responsabilidade muito grande...
As
horas foram se passando sem grandes acontecimentos e sem que eu me sentisse nem
um pouco melhor e finalmente o sol estava nascendo prenunciando um novo começo!
Existe um intervalo no tempo em que os minutos se atropelam, e ele começa
exatamente às 6h da manhã... das 6 às 8h o tempo corre e você não vê ele
passando! E graças a Deus o relógio bateu às 8h e eu podia finalmente ir para
casa!
Dei
uma última visita ao meu amigo banheiro, peguei minhas coisas juntamente com o
resto de saúde que me restava, entrei no carro e fui pra casa sonhando com
minha cama!
Ah, que maravilha!!! Quando você faz a curva chegando em casa, já consegue ver todo
o esplendor da Guarapiranga e o cheiro da umidade invade os seus pulmão avisando
que você chegou em casa! Felicidade é pouco pra descrever o que eu senti quando
abri o portão!
Minha
avó veio me receber, perguntou como eu estava, como foi o plantão e me disse
que minha mãe estava deitada passando mal e que passou mal a noite inteira como
eu... realmente, acho que bebemos água de vala e a família toda, porque depois meu primo, minha tia, e minha avó ficaram doentes e não comemos a mesma comida... conversamos sobre amenidades
antes de eu poder ir para o banho e finalmente para a cama e então perguntei
como foi a noite e as novidades... e minha avó só falou: Ah foi tudo ótimo, não
aconteceu nada demais, todo mundo se divertiu mas infelizmente o pititico sumiu...
- Oi?
Como assim o Pititico sumiu? Que pititico? - Ah, Carol, ontem na hora dos fogos o
Sam se assustou e fugiu de casa e não conseguimos mais achar ele...
Sabe
aquele momento em que você reúne todo o seu auto controle, mas tudo o que você
consegue pensar é em gritar em alto e bom tom um sonoro C A R A L H O !!! Não! Não
pode ser!!! Como assim você passou a noite toda sedando os cachorros dos outros
por causa dos fogos e o seu cachorro fugiu por causa dos malditos fogos? E como
assim ninguém achou ele??? Vou achar esse cachorro agora!
Então
a adrenalina misturada com indignação e raiva contiveram as minhas tripas e eu
fui pro meio da rua gritar chamando meu Sammy... andei como um carteiro e quando
estava chamando passou um menino perguntando se eu tinha perdido um salsicha
preto por que tinha um a 3 ruas na frente tremendo de medo e sozinho... continuei
chamando, ele começou a latir e veio correndo!!! Pelo menos depois de uma noite
infernal, de cagar as tripas, vomitar como uma bêbada e perder um cachorro, um
final feliz!
Já
deu hein, Deus? Se esse é o dia dos novos começos, esse começo eu já conheço!!!
Há
quem não acredite em Inferno Astral e existem ainda aqueles que não sabem o que
é. Para essas pessoas eu só posso dizer 1 coisa: não se aproximem de mim de
meados de maio até o final de julho...
O
Inferno Astral é aquela época até 2 meses antes do seu aniversário em que o
Diabo sai pessoalmente do Inferno e passa a morar na sua residência, na sua
vida, acabando com seu astral pra fazer qualquer coisa. Acho que ele fica
entediado e sobe pra colocar o papo em dia, sei lá. É a fase da sua vida em que
se tudo está dando certo, se você está feliz, calma, porque tudo que é bom
dura pouco e se durar muito, não vai conseguir atravessar essa fase.
Algumas
pessoas acreditam que o local do seu nascimento, a hora, o dia, tudo influencia
na sua personalidade. Eu sou uma dessas pessoas, eu acredito que a posição dos
astros na hora do nascimento tem influência na vida das pessoas. Mas com o
passar dos anos eu acabei percebendo que quando eu nasci, os astros deviam
estar bêbados...
Eu
adoro fazer aniversário! Não me importo de estar ficando velha ou essas
frescuras que as mulheres inventam pra sofrer. O que eu mais gosto nos
aniversários é que eles colocam um fim ao meu Inferno Astral. Mas como toda
pessoa normal que se preze, eu odeio o momento do “Parabéns”, aliás, a pessoa
pode ter 150 anos, na hora em que começa o “Parabéns pra você” a vergonha toma
conta dela como se estivesse correndo pelada no meio da Praça da Sé! Acho que é
uma tradição que deveria ser seguida só até os 7 anos de idade, que é quando a
criança já começa a passar vergonha com os coleguinhas.
Voltando
aos meses que antecedem meus aniversários... Não preciso nem falar que as
coisas são um pouco mais difíceis pra mim do que para a maioria das pessoas...
partindo desse pressuposto, imaginar que o caos se instala na minha vida a cada
ano, não seria uma novidade muito grande. Mas nos últimos anos, Murphy tem
estado de parabéns!
Existe
um ciclo maligno que permeia o céu a cada 29 anos mais ou menos, que é quando
Saturno volta para a posição inicial no
seu mapa Astral e traz uma série de desafios. Sendo o planeta da maturidade,
quando Saturno volta pra sua vida ele traz desafios que te fazem crescer, ou
deveriam... como desgraça pouca é bobagem, Saturno resolveu entrar na minha
vida aos 27 que é pra aproveitar mais o tempo comigo e está festejando às
minhas custas até hoje, esse fanfarrão!
Como
eu já disse, minha família nunca foi muito abastada, mas chegando perto do meu
aniversário a pobreza se abate sobre nós como as pragas do Egito! De uma forma
impressionante as coisas vão ficando mais difíceis, mais demoradas e culminam
com uma pobreza de dar inveja ao Seu Madruga! Não falha nunca!
Mas de 2012 pra cá, as coisas começaram a
piorar! Deve ser a alguma maldição Maia por não ter acabado o mundo no ano
previsto ou então Deus resolveu que eu já vivi todos os momentos de alegria que
tinha pra viver (aham) e resolveu besuntar os cones com cerol para que eu pudesse
sentar a cada ano nas comemorações que antecedem a santa data do meu
nascimento.
O
ano de 2012 foi difícil para toda a minha família, porque minha avó foi
diagnosticada com Câncer de Mama e precisou ser submetida a uma mastectomia. A
cirurgia aconteceu em junho e saindo do hospital fui morar com a minha veinha
pra ajudar no pós operatório e acompanhar o tratamento. Não precisa nem dizer
que não é fácil pra ninguém ver uma pessoa amada passando por momentos tão
difíceis. Mas conseguimos superar tudo e hoje ela está ótima!
Não
foi um ano particularmente fácil 2012, e o Inferno Astral chegou com tudo!
Tinha me formado e não conseguia emprego, minha avó estava doente, estava
morando na casa dela e eu odeio com todas as forças que habitam o meu ser
dormir em qualquer lugar que não seja a minha cama, mas depois as coisas foram
se ajeitando...
Então
chegaram os tão temidos 29... Ah, meus 29 anos!!! Me lembro como se fosse
ontem!!! Dessa vez a coisa foi bem interessante!!! Estávamos procurando casa
para mudar depois de 12 longos anos morando no odiado apartamento e encontramos
uma casa maravilhosa!!!! Que alegria!!! Demos entrada nos papéis, avisamos na
imobiliária que deixaríamos o apartamento e demos entrada nos papéis para
entrega do imóvel! Tudo certinho! Mas... no dia de assinar o contrato de
locação da casa, eis que o proprietário resolve que não quer mais locar o
imóvel! Mas que C$#@!¨&
E
como faz? Quando você tem data pra entregar a casa em que mora e não tem casa
pra ir? E dá-lhe procurar casa de novo! Por fim encontramos a casa perfeita!!!
Que maravilha! Era como a realização de um sonho. Sabe quando você entra em um
lugar e tem certeza que quer passar o resto da sua vida ali? Essa é a minha
casa!
O
dia era 29 de maio de 2013... o dia em que oficialmente tínhamos a casa dos nossos
sonhos!!! A alegria era tanta que nada poderia abalar nosso espírito! Ou quase
nada...
Como
já lhes contei, com a casa nova veio Pernilongo... mas não é só isso. Porque a
caseira estava internada no hospital quando nos mudamos e tinham mais 5
cachorros e 2 gatos que não conhecíamos morando na casa e tínhamos que cuidar
de todos eles. Sem problemas! Adicione a isso mais um gato, dois cachorro, uma
calopsita, duas tartarugas e um papagaio. Tranquilo né?
Mas
quando você está feliz, nada pode te abalar... então iniciou-se o Apocalipse
Animal. Os cachorros formaram bandos diferentes. Sendo que as duas cachorras
mais velhas da caseira, Lassie e Branca,
batiam nos outros. Os cachorros mais novos, Fredy e Princesa, roubavam o
lixo da vizinhança toda e traziam para casa para espalhar pelo quintal, Pink, a
outra cachorra da casa não podia sair da casa da caseira, porque brigava com
todo mundo, Pernilongo caçava tudo que se movia na represa e o Átila ficava de
cara feia para qualquer criatura que cruzasse o caminho dele e não queria sair
no quintal para não molhar os pés... Nesse meio tempo, tínhamos um gato de 11
anos, Amon-Ra, e os dois gatos da caseira que não podiam se encontrar, mesmo
por que um dos gatos estava claramente doente com Complexo Respiratório felino
e muita verminose...
Como
os gatos ficam estressados com mudanças, o Amon foi o último a se mudar para a
casa nova, ficando no apartamento um dia a mais junto com o Bartô, o papagaio,
e Charlie, a calopsita, para que não fugisse no meio da mudança. E o estresse
de ficar sozinho um dia quase matou meu gordo.
Todos
já instalados na casa nova percebi que o Amon não queria comer, passados 2 dias
sem comer, fiquei com medo de Lipidose Hepática devido ao jejum e o levei a um
vetcolega para fazer exames e eis que a surpresa se apresentou na forma de uma
Insuficiência Renal Aguda que elevou a Creatinina do gordo do valor normal até
1,6 para 20 e sua Uréia para quase 600... Sabe quando você recebe uma notícia e
engole o choro pra não fazer vergonha? Essa era eu na clínica quando peguei o
resultado dos exames.
Iniciou-se
então a fluidoterapia todos os dias na clínica, muita medicação pra vômito,
protetor gástrico, ômega 3 e o escambau e a pobreza que já se abate normalmente
sobre nós nessa época foi agravada com uma conta de quase 2 mil reais de
veterinário, mas felizmente nosso gordo se salvou e sua Uréia e Creatinina
voltaram aos valores normais! Maravilha, né???
Nesse
meio tempo iniciou-se então a dinâmica dos canis. São três canis na casa e o
rodízio começou com cães presos pela manhã, outros à tarde e alguns à noite
para que não houvesse brigas. Tudo estava evoluindo bem e minha mãe e eu íamos
trabalhar todos os dias e voltávamos para casa por volta das 23h30. Quando
chegávamos em casa iniciava-se então o inferno de prender os cachorros para
colocar o carro para dentro e a latição de 7 cachorros anunciando a nossa
chegada era ensurdecedora.
Certo
dia, chegando em casa notei que o Átila não estava latindo junto com os
outros... colocamos o carro para dentro e fui procurar meu baixinho, mas ele não
estava em casa... Neste dia descobrimos que a cerca que circunda a casa estava
quebrada e os cachorros tinham livre acesso à rua e, um cachorro que foi criado
em apartamento por 8 anos realmente não sabe andar na rua.
Não
desejo a ninguém o desespero de perder alguém que ama e não ter idéia se está
vivo, morto, se está bem, se está passando frio, fome ou qualquer dificuldade.
E eu procurei o meu baixinho... não conseguia dormir pensando em como ele
estava, levantava cedo e saía chamando
ele na rua e falando com todos os vizinhos perguntando, e nada... 90% das
pessoas com quem falei afirmaram ver o Átila na rua, brincaram com ele,
disseram que ele era muito simpático e que depois ele sumiu...
Espalhei
cartazes por todos os lugares, saía perguntando por ele nas casas, peguei o
carro e fui ao centro perto de casa distribuir cartazes em todos os lugares e
uma semana depois, estávamos ainda no apartamento terminando de limpar para
entregar o imóvel, recebo uma ligação informando que o baixinho estava bem e
que poderia ir busca-lo.
Poucas
vezes na minha vida eu senti um alívio e uma felicidade tão grandes quanto ao
receber aquela ligação. Minha mãe foi busca-lo imediatamente para levarmos o
sem vergonha para casa.
Estávamos
felizes novamente! Que beleza quando as coisas estão dando certo! Minhas tartarugas,
Pietra e Lilica, estavam comigo há 12 anos e eram tartarugas aquáticas que
estavam sem aquário mas nadavam todos os dias na piscina. Com a quantidade de
cachorros desconhecidos na casa, não deixava minhas meninas saírem no quintal,
mas a caseira se mudou e levou os cachorros, então elas podiam passear. Como
aqui em casa tem muito mato, eu soltava as duas e ficava olhando para que não sumissem
e, um belo dia, tive a brilhante ideia de deixar que elas ficassem no canil e
arrumei pra elas um lugar com água, a comida e bastante espaço pra andarem e
tomar sol...
Sabe
aquele momento em que você acha que teve uma idéia brilhante? Pois é... qual
não foi minha surpresa quando descobri que as duas, vejam bem, as DUAS
tartarugas conseguiram me enganar e fugiram do canil... Sim meus amigos, eu
consegui perder 2 tartarugas...
Passadas
3 semanas na agonia de procurar as meninas e já dando como perdidas, porque, afinal de contas, quem ia preferir viver em uma piscina podendo nadar na
Guarapiranga? Uma bela manhã eu acordo e quem havia voltado para casa????
Pietra! Minha menina voltou pra casa! Que alegria!!! Eu nunca mais a deixaria no canil, agora só ia sair com supervisão e voltar pra dentro de casa para dormir.
Com
o tempo você vai se esquecendo o porquê das suas regras e vai afrouxando as
rédeas e, num belo dia de sol em que estávamos felizes nadando na piscina e dona
Pietra estava conosco tomando sol, entramos para tomar banho e deixei minha
menina ficar um pouco mais lá fora... cerca de 20 minutos depois, saí para
cobrir as gaiolas dos passarinhos e colocar a Pietra pra dentro e... ela já
havia sumido...
Sim!
Eu consegui perder a mesma tartaruga 2 vezes!!! Não havia a menor possibilidade
de uma tartaruga sair da piscina, descer um lance de escadas e fugir de casa em
20 minutos! Mas não contávamos com a presença de Pernilongo... Sim, Pernilongo
sequestrou a Pietra e comeu minha bichinha no meio do mato e a única coisa que
minha avó encontrou foi o casco dela todo mastigado de cachorro...
Acho
que não se pode culpar os astros pela sua burrice mas é realmente difícil
quando a bosta vem toda junta, sua mente fica confusa! Mas eu sobrevivi e os
outros animais também!
No
ano de 2014, apesar da pobreza, não houve muitos contratempos além do medo
de perder nossa casa que acabou se resolvendo sem muitos problemas apesar de um
ataque de estresse absurdo, mas esse ano já está prometendo... Meu Inferno
Astral deu início aos trabalhos em Maio levando embora meu Bartô...
Estava
de plantão no hospital e minha mãe me liga falando que o papagaio estava no
fundo da gaiola passando mal, sem respirar direito. Às vezes eu acho que ignorância
deve ser uma benção, porque quando eu ouvi aquilo eu já sabia que não daria
tempo de ajudá-lo. Mas a adrenalina tomou conta de mim numa ânsia de resolver
aquele problema o mais rápido possível. O hospital fica a 10 km da minha casa,
e eu peguei o carro e corri o mais rápido que pude, liguei pra veterinária que
cuida de aves no caminho e quando cheguei no portão de casa, ele morreu...
É
muito duro você passar o dia ajudando os animais das outras pessoas e não poder
fazer nada pelo seu amigo de 20 anos que cresceu com você... não poder ajudar
aquele que acordava todos os dias e gritava “Carol” quando ouvia minha voz até
eu ir até a gaiola e falar “Bom dia, Bartolito”...
Mas
é o ciclo da vida, existem coisas que não podemos mudar... Vamos levando a vida
como podemos. Então, quando você acha que as coisas não podem piorar, você toma
um pé na bunda! Vá pra PQP todo mundo!!!! Chega logo, 26!!! Chega logo, porque
não sei se eu chego lá com você!